domingo, 5 de março de 2023

Rua sem saída

 Era muito quente aquele dia. O calor era tanto que o suor escorria entre os seios. A porta abria e subia pelos degraus uma dúzia de oportunidades. Mas aquele dia o incômodo era tanto que ninguém suportaria um toque se quer de pele que fizesse desviar a atenção e do objetivo maior que era sair daquele forno amontoado de gente. Era já o quarto naquele dia, prometeu chegar em casa ao menos com uns trocados para completar a valor de um café, um leite, pão. A esperança estava cedendo espaço para o desespero quando teve a ideia de usá-lo ao seu favor. Ninguém gosta de ver o desespero assim jorrando da ferida exposta da inanição. Mas para ela era a única coisa que restava. A primeira coisa que fez foi levantar e ir na direção das pessoas sentadas nas cadeiras do outro lado do corredor. Algumas deram moedas de 25 e 50 centavos. Pensou em voltar para casa e comprar na rua copos de café daqueles ambulantes que vendiam lanches, mas tomar ele puro a deixava com dores no estômago. Remédio agora nem pensar! Sentou um pouco para descansar e sentiu uma leve tontura. Sentiu um calafrio, passou a língua nos lábios rachados e percebeu a inexistente saliva. Teve vontade de chorar . Um incômodo na garganta a impediu de continuar naquele momento. Ainda era início do mês, tinha que continuar. 

(continua...)