quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Fala

 Fala. Falar. Falo. Eu falo, tu falas, ele fala, nós falamos, vós falais, eles falam. Do latim: Fabulere, que vem de fábula, que quer dizer "rumor, diz-que-diz, conversa familiar, lenda, mito, conto". 

Eu não gosto de falar. Na maioria das vezes quando estou com pessoas, eu aprecio o momento que elas estão se sentindo a vontade para falar incessantemente sobre si mesmas. Na verdade, eu gostaria de ser assim. Eu acho que isso acontece pelo simples fato de não me conhecer. Escrever é uma ótima forma de se conhecer, pois o que eu escrevo é exatamente o que eu quero e penso. Não é outra pessoa que está pedindo para eu escrever. O que eu penso eu escrevo neste momento. 

Além de não me conhecer muito, pode ser também pela falta de prática. E também falar dá preguiça. Tem que ter uma lógica o que você vai falar. Início, meio e fim. Tem que ter cuidado com a entonação. Dicção. É uma formulação básica e fílmica o que você tem que produzir mentalmente para poder reproduzir verbalmente para o ouvinte permanecer interessado no que você fala. Um dos meus objetivos para esse ano era interagir mais. 

Eu acho que falhei miseravelmente. Eu sou uma péssima companhia. Eu acho! Das poucas pessoas amigas que permanecem na minha vida, permanecem pelo cuidado e pelo interesse que temos umas com as outras. Eu fico feliz quando uma delas está feliz ou quando conquista alguma coisa. Porém, a vida adulta afasta. É muito difícil sair por sair. Hoje  em dia, para sair é necessário um motivo. E muitas vezes a saída não sai como o esperado. As conversas nesses encontros não precisam de regras. A gente fala, a gente escuta, a gente é feliz. 

Por vezes eu tento falar o que quero ou apenas reproduzo pequenos efeitos verbais que surgem coletivamente com o intuito de aniquilar o vazio constrangedor que fica suspenso no ar, como "tá calor hoje né? ou o natal tá chegando". Eu seguirei tentando e ouvindo dos que tem a falar. 

Falemos!

domingo, 13 de outubro de 2019

Domingo


Rumo ao cinema. Dia quente e agradável. Banho tomado e com uma roupa do agrado. Algo estava por acontecer. Na parada, eu e uma senhora. Ela retira o celular da bolsa, olha para o visor e logo o esconde novamente. Passam-se cinco minutos. Os ônibus demoram a passar no domingo. Batom vermelho-sol. Estava exalando um perfume sufocante.  Ela afasta a mão direita diante seus olhos e dá aquela checada nas unhas recém chegadas da manicure. Combinavam com a cor da boca. Era um vermelho não tão vermelho. Eu costumo pensar que a nossa geração criou certos termos para cores que se caracterizam em diversos tons. Cores tristes, alegres. Paleta artística que sobrepõe o cotidiano das pequenas coisas. Típico vermelho da pele agredida de sol de quem trabalha em busca dos dias de glória. Um vermelho agressor.
 Eis que surgem na parada de ônibus uma mulher e duas crianças meninas. Uma com seus onze anos mais ou menos e a outra com bem menos. Algo estava por acontecer. A mulher chegou praguejando, transtornando o cenário comum, trazendo consigo toda revolta do cidadão que desperdiça um terço da vida esperando pela junção das vidas alheias. Os ônibus demoram a passar no domingo.  Lancei um sorrisinho infeliz apoiando suas reclamações. A mulher estava de havaianas nos pés e com uma mochila nas costas de escola municipal. Roupas simplórias. As três, aliás. A maior estava calçada de chinelos inúteis. Vi que na parte abaixo do pé  esquerdo tinha um buraco, que quando sentou no banco da parada e apoiou  uma perna sobre a outra deu para ver. Um buraco que era comum.  Comum às três. A menor estava descalça e, logo que chegou de mãos dadas  com a mulher, foi puxada pelos braços, erguida e lançada ao lado da maior. Outra coisa comum entre elas era que estavam comendo de forma animalesca um milho cada uma. O milho é uma comida de rua na minha cidade. Tão barato e pouco.  A mulher foi a primeira a terminar e lançar sabugo na rua. A segunda a lançar foi a maior. A menor ficou o tempo inteiro segurando o sabugo, chupando, mordendo, babando. Não queria largar aquele resto que de pouco era muito. Aparentemente a pequena era acostumada em acolher o que lhe resta. Foi observando essas ações que percebi que havia um quarto membro compondo essa história: Uma boneca bem branquinha, com um vestido cor de rosa, loira, de olhos azuis. Aparentemente nova. Será que foi presente? A boneca brilhou naquele cenário logo que a percebi. Ofuscou a cor sem vida daquele quadro que preenchia o vazio da avenida com transeuntes inanimados.  A mulher ao terminar de  lançar o milho sentou ao lado da maior e a puxou pelo braço dizendo:  
— Vem cá, deixa eu ver uma coisa.  
Algo estava por acontecer. A boneca logo sumiu no colo da maior quando a mulher tirou o prendedor de seu cabelo e o arremessou todo para frente com o intuito de catar piolhos. Os ônibus demoram a passar no domingo. A mulher de boca e unhas vermelhas se afastou, dando uns passinhos para trás. Fiquei pasma. Onde estava a menor nesse momento? Brincando com o sabugo? A maior, com a cara afundada nos cabelos, logo estendeu a mão dizendo:  
— Me dá.  
A mulher puxou o piolho e o colocou na mão da maior, fazendo a boneca ser um brinquedo secundário ali. Simultaneamente, a pequena subiu no banco onde estavam as outras duas e começou a pular.  Provavelmente naquele momento o tédio haveria lhe alcançado. Logo mais a mulher a fez parar com uma tapa que a acertou em cheio na perna, acompanhada de uma dose de palavras rudes. Os ônibus demoram a passar no domingo. A cena ali se seguiu. Não vi mais a mulher de boca e unhas vermelhas. Será que desistiu de esperar o ônibus? É por que os ônibus demoram a passar. A cena ali seguiu. Um silêncio momentâneo que surgiu fez a mulher olhar bruscamente para trás do banco. Bem ali se deparou com a menor evacuando.  A reação rugia pela rua afora: 
— Puta que pariu. Que menina imunda. Como é que tu sai de casa pra me fazer uma desgraça dessas?   A maior logo apoiou a revolta da mulher olhando com cara de reprovação para a menor: 
 — Que menina imunda!
Logo correu tomando iniciativa empurrando a maior que estava toda assanhada com piolhos em uma mão e com a boneca na outra.  Mandou arrumar terra, e puxou a menor pelo braço. Olhou para um lado e  para o outro e foi atrás da palha do milho que tinha jogado na rua  anteriormente. Ao voltar, pegou a menor bruscamente, virando-a, abaixando-a  e limpando-a. Jogou longe a palha na rua novamente. Os ônibus demoram a passar no domingo. A maior voltou com um copo descartável cheio de terra e logo escondeu as fezes da menor. A mulher empurrou a cabeça da menor : 
— Se fizer isso de novo tu apanha!  A mulher abriu sua mochila, puxou uma garrafa pet com água e lavou as suas mãos. Em seguida guardou.  Se sentou novamente no banco da parada e amarrou o cabelo da maior. Praguejou por causa da demora do ônibus mais uma vez. E, de repente... Não é possível!. A mulher olhou para trás do banco e se deparou com a menor brincando com as fezes enterradas, enfiando o dedo minúsculo diversas vezes. Sua reação foi aparentemente planejada por ter sido tão 
precisa e ágil. Com certeza já teria feito anteriormente por ter sido efetuada com uma mestria altamente calculada. A mulher, com um movimento que mais parecia de uma arte marcial, retirou a havaiana do pé e jogou velozmente no pescoço da menor. A indignação na voz da mulher e na da menina maior logo veio à tona novamente, reprovando toda aquela vil situação: 
— Essa menina é uma imunda mesmo! — Imunda. 
A mãozinha da menor foi em direção ao local da agressão e, na tentativa de amenizar a dor, realizou movimentos circulares acompanhados por lágrimas gordas concretizadas nas retinas que resistiram em cair. Os ônibus demoram a passar no domingo. A mulher retirou novamente a garrafa pet da mochila e, com um puxão, trouxe a menor para perto de si e lavou suas mãos raquíticas. Fiquei angustiada. Finalmente apontou na esquina o tão esperado ônibus. Senti um alívio perturbador. Todas nos preparamos para pegá-lo. Entrei, passei pela roleta e sentei bem atrás, nas últimas cadeiras. As três entraram pela porta do meio preferencial, a maior e a menor se sentaram logo nas cadeiras da frente. A mulher também sentou após pagar sua passagem. O caminho se seguiu, o sol já havia cessado o seu brilho. As três desceram bem antes do meu ponto e, por isso, consegui me despedir silenciosamente ao contemplar um último acontecimento. A mulher mandou a menina maior passar a boneca para a menor, falando que aquele momento presente era a vez da outra brincar com a única boneca presenteada pelo acaso. Fiquei inútil.  
 




domingo, 21 de fevereiro de 2016

Insônia de sábado

Uma poesia antiga na insônia de sábado
Me fez refletir sobre acontecimentos rotineiros
Tão normais que as faces ficam impassíveis
 Preocupadas apenas com julgamentos alheios

O poeta foi expulso da cidade
Hoje ninguém vê que a criança tem fome
Seu olhar disse: o mundo age sem piedade
E eu nem sequer sabia o seu nome

Hoje as pessoas só olham a palma da mão
Não se compadecem pela conversa amargurada
Estariam interessadas no assunto de antemão
Com a pessoa em outro lugar conectada

O catador  rejeitado desabafa seu perecer
Disse que a vida de boa, trouxe decepção
Fala que trabalha pra não enlouquecer
Amargurado e sem rumo, condenando a solidão







terça-feira, 4 de agosto de 2015

O meu prazer

Deita ao meu lado e deixa eu bagunçar esse cabelo
Apesar do tempo, o meu prazer é provocar um riso 
Nesse rosto infantil, isso não é nenhum segredo
Não és escolha, és a resistência que sinto

Me encanto com você a cada dia
Escolhi viver os desafios dessa vida ao seu lado
Minha vida sem você, como seria? 
Uma nota errada em violão amargurado

Não mais me envergonho da maquiagem borrada
Nem da roupa desalinhada
Você invadiu minha retina, viajou em minha alma
Deixou uma surreal melodia e de todo o resto fez morada.



segunda-feira, 13 de julho de 2015

Cotidiano vazio

Eu olho pra imensidão do céu 
a procura de uma fuga para o infinito

Uma fuga que me faça viver em êxtase
com sublimes feições  extraterrestres a me contemplar

Inteligível como frase sem crase
Mas tudo se curva diante do caótico mundo 
que insiste em me abominar

Tento libertar os pensamentos de forma nítida no claustro acolhedor
Pois meu mundo anseia euforia

Mas não! Martírio, dor... hoje até Nietzsche me consolou
Por fim, apago até a próxima dinastia

No outro dia a mandala da embriaguez me distrai
Eu olho pra imensidão do meu ser e um grande vazio me esvai.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tropicália: A reviravolta Cultural

Não devemos simplesmente deixar de lado tudo que aconteceu no nosso Brasil. Não podemos deixar esquecidos capítulos mostrando a realidade do passado do nosso país, deixando livros de história enfeitando as prateleiras de uma biblioteca. É dever de todo brasileiro, honrar e homenagear hoje, o que pessoas iguais a nós no passado, fizeram para transformar o que antes era cultura vinda de outros, em cultura própria do nosso lugar. Não deixemos às traças, as lembranças de uma humanidade que deixou de ler para viver uma história. Tratemos com respeito aqueles que antes protestaram por respeito. Diante de tal conscientização, tratarei de expandir os alicerces de um movimento muito importante, que marcou a transformação da cultura musical brasileira. Estou me referindo ao Tropicalismo. Esse movimento cultural revolucionário teve como influência o movimento antropofagia de Oswald de Andrade e do concretismo. O que chamou e chocou de certa forma, a atenção dos quem assistia toda a cena, foi a sua capacidade de misturar vários gêneros musicais, como o rock, a bossa nova, o baião, o samba, o bolero, entre outros. Com a intenção de modernizar a nossa cultura com novos padrões estéticos, incentivando um modelo que representasse o Brasil, de modo que o descrevesse de forma original. No auge de uma ditadura militar, com o Brasil sendo governado por Costa e Silva, os principais líderes desse movimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil, lançaram o disco Tropicália ou Panis et Circensis, na companhia de outras grandes cantores. São eles: Gal Costa, Tom Zé, Nara Leão, Maria Bethânia, Torquato Neto, Os Mutantes, entre outros. Sendo apelidado de disco ''Feijoada Cultural''. Neste tempo, a vanguarda erudita era considerada como o símbolo da tradicional e única música brasileira. A guitarra elétrica era vista como um símbolo da alienação e submissão à cultura norte americana. Por isso, quando o movimento veio com a intenção de misturar vários elementos em um único estilo musical, várias pessoas criticaram bruscamente a nova tendência, não sabendo eles que a intenção era universalizar a linguagem da MPB, incorporando elementos do rock com o ritmo arrepiante da guitarra elétrica, a sincronizar com a vanguarda erudita. Quando nos vem à cabeça o período da ditadura militar, imaginamos a total censura, as torturas, as prisões, a polícia repressora. Mas, não deixemos também de lembrar que esse período foi riquíssimo em criatividade e ousadia de um povo que queria ver brilhar em vários pontos da terra, a essência da Terra Adorada. 

Ganância, voracidade e guerra

Desde as independências de todos os países atuais até as principais guerras ocorridas no mundo, o motivo econômico é o que leva os que estão no poder embriagar milhões de homens, e empurra para os campos de batalha com ideais de "patriotismo".
Cegos com tanta devoção há sua terra, matam pessoas que nunca viram antes, e as poucas que voltam vivas se envaidecem com um semblante heroico. Morto e enterrado está o semblante heroico daqueles que não poderão voltar para suas casas, fazendo tantas crianças ficarem órfãs.
Analisando a balança comercial bio econômica, o auge resplandece para um país e a humilhação é o que resta para outro além de ter a metade da população dizimada; o corpo não é mais desfigurado por bombas e granadas, mas a honra é o alvo da mutilação que faz alimentar o ódio de uma nação que insiste ficar de pé.
Vamos sair e se divertir, ver o pôr-do-sol, enquanto aproveitamos e admiramos o que nos resta de belo por aqui, ao mesmo tempo no outro lado do mundo é calculado a destruição e o fim de pessoas inocentes. Contam-se os segundos para que a matéria se desintegre da face da terra.