domingo, 13 de outubro de 2019

Domingo


Rumo ao cinema. Dia quente e agradável. Banho tomado e com uma roupa do agrado. Algo estava por acontecer. Na parada, eu e uma senhora. Ela retira o celular da bolsa, olha para o visor e logo o esconde novamente. Passam-se cinco minutos. Os ônibus demoram a passar no domingo. Batom vermelho-sol. Estava exalando um perfume sufocante.  Ela afasta a mão direita diante seus olhos e dá aquela checada nas unhas recém chegadas da manicure. Combinavam com a cor da boca. Era um vermelho não tão vermelho. Eu costumo pensar que a nossa geração criou certos termos para cores que se caracterizam em diversos tons. Cores tristes, alegres. Paleta artística que sobrepõe o cotidiano das pequenas coisas. Típico vermelho da pele agredida de sol de quem trabalha em busca dos dias de glória. Um vermelho agressor.
 Eis que surgem na parada de ônibus uma mulher e duas crianças meninas. Uma com seus onze anos mais ou menos e a outra com bem menos. Algo estava por acontecer. A mulher chegou praguejando, transtornando o cenário comum, trazendo consigo toda revolta do cidadão que desperdiça um terço da vida esperando pela junção das vidas alheias. Os ônibus demoram a passar no domingo.  Lancei um sorrisinho infeliz apoiando suas reclamações. A mulher estava de havaianas nos pés e com uma mochila nas costas de escola municipal. Roupas simplórias. As três, aliás. A maior estava calçada de chinelos inúteis. Vi que na parte abaixo do pé  esquerdo tinha um buraco, que quando sentou no banco da parada e apoiou  uma perna sobre a outra deu para ver. Um buraco que era comum.  Comum às três. A menor estava descalça e, logo que chegou de mãos dadas  com a mulher, foi puxada pelos braços, erguida e lançada ao lado da maior. Outra coisa comum entre elas era que estavam comendo de forma animalesca um milho cada uma. O milho é uma comida de rua na minha cidade. Tão barato e pouco.  A mulher foi a primeira a terminar e lançar sabugo na rua. A segunda a lançar foi a maior. A menor ficou o tempo inteiro segurando o sabugo, chupando, mordendo, babando. Não queria largar aquele resto que de pouco era muito. Aparentemente a pequena era acostumada em acolher o que lhe resta. Foi observando essas ações que percebi que havia um quarto membro compondo essa história: Uma boneca bem branquinha, com um vestido cor de rosa, loira, de olhos azuis. Aparentemente nova. Será que foi presente? A boneca brilhou naquele cenário logo que a percebi. Ofuscou a cor sem vida daquele quadro que preenchia o vazio da avenida com transeuntes inanimados.  A mulher ao terminar de  lançar o milho sentou ao lado da maior e a puxou pelo braço dizendo:  
— Vem cá, deixa eu ver uma coisa.  
Algo estava por acontecer. A boneca logo sumiu no colo da maior quando a mulher tirou o prendedor de seu cabelo e o arremessou todo para frente com o intuito de catar piolhos. Os ônibus demoram a passar no domingo. A mulher de boca e unhas vermelhas se afastou, dando uns passinhos para trás. Fiquei pasma. Onde estava a menor nesse momento? Brincando com o sabugo? A maior, com a cara afundada nos cabelos, logo estendeu a mão dizendo:  
— Me dá.  
A mulher puxou o piolho e o colocou na mão da maior, fazendo a boneca ser um brinquedo secundário ali. Simultaneamente, a pequena subiu no banco onde estavam as outras duas e começou a pular.  Provavelmente naquele momento o tédio haveria lhe alcançado. Logo mais a mulher a fez parar com uma tapa que a acertou em cheio na perna, acompanhada de uma dose de palavras rudes. Os ônibus demoram a passar no domingo. A cena ali se seguiu. Não vi mais a mulher de boca e unhas vermelhas. Será que desistiu de esperar o ônibus? É por que os ônibus demoram a passar. A cena ali seguiu. Um silêncio momentâneo que surgiu fez a mulher olhar bruscamente para trás do banco. Bem ali se deparou com a menor evacuando.  A reação rugia pela rua afora: 
— Puta que pariu. Que menina imunda. Como é que tu sai de casa pra me fazer uma desgraça dessas?   A maior logo apoiou a revolta da mulher olhando com cara de reprovação para a menor: 
 — Que menina imunda!
Logo correu tomando iniciativa empurrando a maior que estava toda assanhada com piolhos em uma mão e com a boneca na outra.  Mandou arrumar terra, e puxou a menor pelo braço. Olhou para um lado e  para o outro e foi atrás da palha do milho que tinha jogado na rua  anteriormente. Ao voltar, pegou a menor bruscamente, virando-a, abaixando-a  e limpando-a. Jogou longe a palha na rua novamente. Os ônibus demoram a passar no domingo. A maior voltou com um copo descartável cheio de terra e logo escondeu as fezes da menor. A mulher empurrou a cabeça da menor : 
— Se fizer isso de novo tu apanha!  A mulher abriu sua mochila, puxou uma garrafa pet com água e lavou as suas mãos. Em seguida guardou.  Se sentou novamente no banco da parada e amarrou o cabelo da maior. Praguejou por causa da demora do ônibus mais uma vez. E, de repente... Não é possível!. A mulher olhou para trás do banco e se deparou com a menor brincando com as fezes enterradas, enfiando o dedo minúsculo diversas vezes. Sua reação foi aparentemente planejada por ter sido tão 
precisa e ágil. Com certeza já teria feito anteriormente por ter sido efetuada com uma mestria altamente calculada. A mulher, com um movimento que mais parecia de uma arte marcial, retirou a havaiana do pé e jogou velozmente no pescoço da menor. A indignação na voz da mulher e na da menina maior logo veio à tona novamente, reprovando toda aquela vil situação: 
— Essa menina é uma imunda mesmo! — Imunda. 
A mãozinha da menor foi em direção ao local da agressão e, na tentativa de amenizar a dor, realizou movimentos circulares acompanhados por lágrimas gordas concretizadas nas retinas que resistiram em cair. Os ônibus demoram a passar no domingo. A mulher retirou novamente a garrafa pet da mochila e, com um puxão, trouxe a menor para perto de si e lavou suas mãos raquíticas. Fiquei angustiada. Finalmente apontou na esquina o tão esperado ônibus. Senti um alívio perturbador. Todas nos preparamos para pegá-lo. Entrei, passei pela roleta e sentei bem atrás, nas últimas cadeiras. As três entraram pela porta do meio preferencial, a maior e a menor se sentaram logo nas cadeiras da frente. A mulher também sentou após pagar sua passagem. O caminho se seguiu, o sol já havia cessado o seu brilho. As três desceram bem antes do meu ponto e, por isso, consegui me despedir silenciosamente ao contemplar um último acontecimento. A mulher mandou a menina maior passar a boneca para a menor, falando que aquele momento presente era a vez da outra brincar com a única boneca presenteada pelo acaso. Fiquei inútil.  
 




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