domingo, 4 de fevereiro de 2024

O jogo dos espelhos


Era um corredor longo e escuro até chegar à porta do banheiro. Ela conduzia- se para dar fim ao seu dia motivado por afazeres corriqueiros e irremediáveis. Essa dinâmica repetia-se exaustivamente, dia após dia. O chão estava frio. Com a ponta do pé, pressiona o tapete que estava longe e posiciona embaixo de si para amenizar a sensação desagradável. Lava o rosto, escova os dentes e olha fixamente para os olhos refletidos no espelho, identifica a aura dos que exalam irresponsabilidade e ignora. Lembra que tinha esquecido de colocar as sobras da refeição na geladeira. Será que estraga? Era isso que importava. O cume da existência moderna e a satisfação imposta para os que não conseguem agir por incompetência. Ela estava lá, admirando seus produtos escolhidos por indicações repercussivas. Cores, cheiros, texturas. Cada embalagem com sua responsabilidade. Seu corpo está suspenso no tempo, adormecido antes mesmo de chegar na cama. Era hábito esse costume. Sua vida. Antes que o próximo passo se realize, sente um aperto na garganta, um nó. O aperto se intensifica, será que está adoecendo? Resolve ir para a cama. Ao devolver um tubo de creme ao seu devido lugar e se posicionar novamente na frente do espelho, percebe que não está sozinha.

O susto e o pavor a consumiu integralmente, quis gritar mas a voz a abandonara. A visita tinha um rosto familiar, os dentes cerrados, lábios contraídos, sobrancelhas arqueadas, olhos fundos e abertos que beiravam anormalidade. Ela vira bruscamente frente a frente com aquela criatura. Os poucos segundos que restaram serviram para identificar o seu próprio rosto transfigurado por feições doentias, disfarçadas inutilmente por uma sombra grotesca. Não entende. Está a um palmo de distância do seu rosto, sente a respiração da sua cópia no rosto como a de um animal. Com as mãos, tenta suspender o corpo sobre a pia que está atrás de si. A tentativa de se distanciar é falha pois aquilo insiste em se aproximar. O pânico a consome. Escapam lágrimas de seus olhos, seu rosto estremece, seus braços estão rígidos ao ponto de se fragmentar. Expele da garganta uma tentativa de socorro. Supersônico. Seu grito resulta no impacto em meio ao crânio que foi direcionado ao chão, juntamente com o resto do seu corpo.

Não sabe por quanto tempo ficou inconsciente. Foi só abrir os olhos para encarar tontura e uma dor latejante no rosto. Percebe que seu corpo estava sendo arrastado por movimentos impulsivos. Levanta um pouco a cabeça e reconhece seu algoz. Não sabe o que fazer, se desespera e debate o corpo que anseia liberdade. Se arrasta na direção contrária, urra, mas é alcançada por outro impacto aterrissado no seu rosto.


Era uma rua sem fim e escura. Ao lado de um carro, uma montanha. Ao lado da montanha um abismo. A vítima está com o corpo esquecido dentro. A cópia exaltada em volta do veículo dança, gargalha, como se comemorasse vitória. Seu rosto se abria para o além. Tira cigarro e isqueiro do bolso e acende. Ergue e admira seu cúmplice. A luz da lua refletia no aço. Aquele era o momento que esperava muito tempo. Ficava sempre à espreita daquele corpo vulnerável dia e noite sem cessar, drenando sua energia, sorrateiramente. Agora chegou a hora de seguir em frente sozinha, já estava forte o suficiente.

Dentro do carro a vítima abre os olhos devagar, tenta situar-se na atual realidade e percebe onde está. adiante aquele ser responsável pela situação. Um cheiro forte de gasolina. Abaixa a cabeça bruscamente e torce para não ser vista. O que aquele ser estava planejando? Ela abre lentamente a porta do carro e subitamente percebe um rastro colossal de fogo vindo na sua direção. A chama se aproxima engolindo o asfalto, sentia o coração batendo na garganta. Suor frio. Tontura. Não pensa, se lança para fora do veículo como se mergulhasse, rolando pelo chão várias e várias vezes. Levanta-se e corre na direção da montanha, cambaleando. A tempo consegue fugir da explosão que a faz desorientar-se em meio ao calor e ao barulho que a faz ensurdecer. Zumbido agudo.

A cópia percebe a fuga e transparece insatisfação com uma estereotipia animalesca. Corre feito fera que avista presa. A vítima se desespera, escala ribanceira acima. A cópia se aproxima com agilidade ao ponto de alcançá-la em questão de segundos. A vítima chega no ápice, vê que não tem saída. Se quiser sobreviver terá que se jogar ou enfrentá-la. Olha para o lado e percebe uma cabeça surgindo do breu com olhos excessivamente abertos refletindo chamas e obsessão. Está lá, frente a frente. Por um momento sente que pode agir. A cópia se aproxima bruscamente e empurra a vítima em direção ao chão e se prepara rapidamente para realizar um golpe certeiro. Superando todas as expectativas, a vítima lança um chute e acerta com maestria o rosto daquela criatura. Desaparece por enquanto. O impacto a fez desmoronar pelas pedras abaixo. Comemora internamente a sua autodefesa  e segue caminho em busca de um lugar seguro. Vai descendo sem sentir as pedras e a areia penetrar seus ferimentos. Agora era questão de honra. A cópia anda em direção ao carro sendo consumido pelas chamas. Abre o porta-malas e retira um martelo. Não esboça nenhum tipo de reação ao entrar em contato com a carroceria fumegante. Abandona o cenário e dá continuidade ao seu objetivo.

A vítima vai correndo, ziguezagueando, adiante a rua sendo iluminada. Finalmente movimentação. Está a salvo. Vai diminuindo os passos, sua existência inteira dói. Sente novamente o nó na garganta seca. Para em frente a uma loja de eletrônicos. Vitrine imensa, vendedores ocupados no ofício. Cores, telas, propagandas, movimentos repetitivos, silêncio... um estrondo. Estilhaços por toda a parte. Involuntariamente se abaixa tapando com as mãos os ouvidos. Olha para o interior da loja e percebe um martelo no chão. Olha para trás e identifica quem originou tal façanha. Invade as profundezas do estabelecimento em busca de socorro. Ela corre entre as prateleiras de objetos à venda, grita para ser notada. As pessoas lhe atravessam com olhos de rotina, cansados e inabalados. Toca no ombro de um dos vendedores e pede ajuda, socorro, piedade, perdão. Nada! Mas será possível? É real? É ela por ela, incessante agonia. Mãos e lábios trêmulos, sangue e suor escorrem em câmera lenta pela têmpora latejante. Engole angústia e desespero. Tapa a boca com as duas mãos para não sinalizar nenhuma localização. Esconde-se.

Ela se inclina para o lado, tentando mirar sua cópia que passeia pelos corredores, assobiando e cantarolando, pescando produtos e observando embalagens como um consumidor indeciso. Volta à posição inicial e percebe o martelo a alguns metros de distância. Sem pensar, corre em direção a ele. Ao agarrar a arma, mantém o corpo abaixado e atravessa a loja, quase irreconhecível, guiada por instintos primitivos e aguçados. Espera, silenciosa, pelo predador. Mandíbula contraída, sangue pulsando, coração na cadência de um tambor. Sente a presença se aproximar, dá alguns passos confiantes e se depara com a cópia. Os segundos que se seguem são decisivos. A cópia dispara em um ataque explosivo. Ela finca as pernas no chão e ergue o martelo acima da cabeça. A adversária inclina o corpo e investe covardemente nas pernas, empurrando-a para frente. Com um movimento rápido, lança o corpo da vítima, fazendo-a tombar miseravelmente.

Após o ataque, a cópia se aproxima lentamente daquele corpo derrotado. A vítima sufoca o choro na garganta, sente incompetência e angústia pela falha. Olha à sua volta e sente que uma plateia a vê desmoronar pela milésima vez. Já falhou, adiou, prolongou, ignorou, demorou demais. O choro é a consequência dos seus atos de postergação.

Seu corpo no chão a fez entender que aquela posição não caberia mais para si. A cópia paralisa. Seus olhos reviram-se, seu corpo cai. Convulsiona. Sua existência se transfigura em vazio.

Em outro instante, a vítima cuidou do corpo que se definhava a cada dia em seus aposentos. Banhou, cuidou das suas chagas, nutriu com delicadezas. Eram novos tempos. A atmosfera transpirava renovação. Aquilo tudo a fez entender que nossos atos podem querer nos consumir.

 E assim, sentiu o vazio prevalecer no lugar. Estava sozinha novamente.


 


domingo, 5 de março de 2023

Rua sem saída

 Era muito quente aquele dia. O calor era tanto que o suor escorria entre os seios. A porta abria e subia pelos degraus uma dúzia de oportunidades. Mas aquele dia o incômodo era tanto que ninguém suportaria um toque se quer de pele que fizesse desviar a atenção e do objetivo maior que era sair daquele forno amontoado de gente. Era já o quarto naquele dia, prometeu chegar em casa ao menos com uns trocados para completar a valor de um café, um leite, pão. A esperança estava cedendo espaço para o desespero quando teve a ideia de usá-lo ao seu favor. Ninguém gosta de ver o desespero assim jorrando da ferida exposta da inanição. Mas para ela era a única coisa que restava. A primeira coisa que fez foi levantar e ir na direção das pessoas sentadas nas cadeiras do outro lado do corredor. Algumas deram moedas de 25 e 50 centavos. Pensou em voltar para casa e comprar na rua copos de café daqueles ambulantes que vendiam lanches, mas tomar ele puro a deixava com dores no estômago. Remédio agora nem pensar! Sentou um pouco para descansar e sentiu uma leve tontura. Sentiu um calafrio, passou a língua nos lábios rachados e percebeu a inexistente saliva. Teve vontade de chorar . Um incômodo na garganta a impediu de continuar naquele momento. Ainda era início do mês, tinha que continuar. 

(continua...)

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Fala

 Fala. Falar. Falo. Eu falo, tu falas, ele fala, nós falamos, vós falais, eles falam. Do latim: Fabulere, que vem de fábula, que quer dizer "rumor, diz-que-diz, conversa familiar, lenda, mito, conto". 

Eu não gosto de falar. Na maioria das vezes quando estou com pessoas, eu aprecio o momento que elas estão se sentindo a vontade para falar incessantemente sobre si mesmas. Na verdade, eu gostaria de ser assim. Eu acho que isso acontece pelo simples fato de não me conhecer. Escrever é uma ótima forma de se conhecer, pois o que eu escrevo é exatamente o que eu quero e penso. Não é outra pessoa que está pedindo para eu escrever. O que eu penso eu escrevo neste momento. 

Além de não me conhecer muito, pode ser também pela falta de prática. E também falar dá preguiça. Tem que ter uma lógica o que você vai falar. Início, meio e fim. Tem que ter cuidado com a entonação. Dicção. É uma formulação básica e fílmica o que você tem que produzir mentalmente para poder reproduzir verbalmente para o ouvinte permanecer interessado no que você fala. Um dos meus objetivos para esse ano era interagir mais. 

Eu acho que falhei miseravelmente. Eu sou uma péssima companhia. Eu acho! Das poucas pessoas amigas que permanecem na minha vida, permanecem pelo cuidado e pelo interesse que temos umas com as outras. Eu fico feliz quando uma delas está feliz ou quando conquista alguma coisa. Porém, a vida adulta afasta. É muito difícil sair por sair. Hoje  em dia, para sair é necessário um motivo. E muitas vezes a saída não sai como o esperado. As conversas nesses encontros não precisam de regras. A gente fala, a gente escuta, a gente é feliz. 

Por vezes eu tento falar o que quero ou apenas reproduzo pequenos efeitos verbais que surgem coletivamente com o intuito de aniquilar o vazio constrangedor que fica suspenso no ar, como "tá calor hoje né? ou o natal tá chegando". Eu seguirei tentando e ouvindo dos que tem a falar. 

Falemos!

domingo, 13 de outubro de 2019

Domingo


Rumo ao cinema. Dia quente e agradável. Banho tomado e com uma roupa do agrado. Algo estava por acontecer. Na parada, eu e uma senhora. Ela retira o celular da bolsa, olha para o visor e logo o esconde novamente. Passam-se cinco minutos. Os ônibus demoram a passar no domingo. Batom vermelho-sol. Estava exalando um perfume sufocante.  Ela afasta a mão direita diante seus olhos e dá aquela checada nas unhas recém chegadas da manicure. Combinavam com a cor da boca. Era um vermelho não tão vermelho. Eu costumo pensar que a nossa geração criou certos termos para cores que se caracterizam em diversos tons. Cores tristes, alegres. Paleta artística que sobrepõe o cotidiano das pequenas coisas. Típico vermelho da pele agredida de sol de quem trabalha em busca dos dias de glória. Um vermelho agressor.
 Eis que surgem na parada de ônibus uma mulher e duas crianças meninas. Uma com seus onze anos mais ou menos e a outra com bem menos. Algo estava por acontecer. A mulher chegou praguejando, transtornando o cenário comum, trazendo consigo toda revolta do cidadão que desperdiça um terço da vida esperando pela junção das vidas alheias. Os ônibus demoram a passar no domingo.  Lancei um sorrisinho infeliz apoiando suas reclamações. A mulher estava de havaianas nos pés e com uma mochila nas costas de escola municipal. Roupas simplórias. As três, aliás. A maior estava calçada de chinelos inúteis. Vi que na parte abaixo do pé  esquerdo tinha um buraco, que quando sentou no banco da parada e apoiou  uma perna sobre a outra deu para ver. Um buraco que era comum.  Comum às três. A menor estava descalça e, logo que chegou de mãos dadas  com a mulher, foi puxada pelos braços, erguida e lançada ao lado da maior. Outra coisa comum entre elas era que estavam comendo de forma animalesca um milho cada uma. O milho é uma comida de rua na minha cidade. Tão barato e pouco.  A mulher foi a primeira a terminar e lançar sabugo na rua. A segunda a lançar foi a maior. A menor ficou o tempo inteiro segurando o sabugo, chupando, mordendo, babando. Não queria largar aquele resto que de pouco era muito. Aparentemente a pequena era acostumada em acolher o que lhe resta. Foi observando essas ações que percebi que havia um quarto membro compondo essa história: Uma boneca bem branquinha, com um vestido cor de rosa, loira, de olhos azuis. Aparentemente nova. Será que foi presente? A boneca brilhou naquele cenário logo que a percebi. Ofuscou a cor sem vida daquele quadro que preenchia o vazio da avenida com transeuntes inanimados.  A mulher ao terminar de  lançar o milho sentou ao lado da maior e a puxou pelo braço dizendo:  
— Vem cá, deixa eu ver uma coisa.  
Algo estava por acontecer. A boneca logo sumiu no colo da maior quando a mulher tirou o prendedor de seu cabelo e o arremessou todo para frente com o intuito de catar piolhos. Os ônibus demoram a passar no domingo. A mulher de boca e unhas vermelhas se afastou, dando uns passinhos para trás. Fiquei pasma. Onde estava a menor nesse momento? Brincando com o sabugo? A maior, com a cara afundada nos cabelos, logo estendeu a mão dizendo:  
— Me dá.  
A mulher puxou o piolho e o colocou na mão da maior, fazendo a boneca ser um brinquedo secundário ali. Simultaneamente, a pequena subiu no banco onde estavam as outras duas e começou a pular.  Provavelmente naquele momento o tédio haveria lhe alcançado. Logo mais a mulher a fez parar com uma tapa que a acertou em cheio na perna, acompanhada de uma dose de palavras rudes. Os ônibus demoram a passar no domingo. A cena ali se seguiu. Não vi mais a mulher de boca e unhas vermelhas. Será que desistiu de esperar o ônibus? É por que os ônibus demoram a passar. A cena ali seguiu. Um silêncio momentâneo que surgiu fez a mulher olhar bruscamente para trás do banco. Bem ali se deparou com a menor evacuando.  A reação rugia pela rua afora: 
— Puta que pariu. Que menina imunda. Como é que tu sai de casa pra me fazer uma desgraça dessas?   A maior logo apoiou a revolta da mulher olhando com cara de reprovação para a menor: 
 — Que menina imunda!
Logo correu tomando iniciativa empurrando a maior que estava toda assanhada com piolhos em uma mão e com a boneca na outra.  Mandou arrumar terra, e puxou a menor pelo braço. Olhou para um lado e  para o outro e foi atrás da palha do milho que tinha jogado na rua  anteriormente. Ao voltar, pegou a menor bruscamente, virando-a, abaixando-a  e limpando-a. Jogou longe a palha na rua novamente. Os ônibus demoram a passar no domingo. A maior voltou com um copo descartável cheio de terra e logo escondeu as fezes da menor. A mulher empurrou a cabeça da menor : 
— Se fizer isso de novo tu apanha!  A mulher abriu sua mochila, puxou uma garrafa pet com água e lavou as suas mãos. Em seguida guardou.  Se sentou novamente no banco da parada e amarrou o cabelo da maior. Praguejou por causa da demora do ônibus mais uma vez. E, de repente... Não é possível!. A mulher olhou para trás do banco e se deparou com a menor brincando com as fezes enterradas, enfiando o dedo minúsculo diversas vezes. Sua reação foi aparentemente planejada por ter sido tão 
precisa e ágil. Com certeza já teria feito anteriormente por ter sido efetuada com uma mestria altamente calculada. A mulher, com um movimento que mais parecia de uma arte marcial, retirou a havaiana do pé e jogou velozmente no pescoço da menor. A indignação na voz da mulher e na da menina maior logo veio à tona novamente, reprovando toda aquela vil situação: 
— Essa menina é uma imunda mesmo! — Imunda. 
A mãozinha da menor foi em direção ao local da agressão e, na tentativa de amenizar a dor, realizou movimentos circulares acompanhados por lágrimas gordas concretizadas nas retinas que resistiram em cair. Os ônibus demoram a passar no domingo. A mulher retirou novamente a garrafa pet da mochila e, com um puxão, trouxe a menor para perto de si e lavou suas mãos raquíticas. Fiquei angustiada. Finalmente apontou na esquina o tão esperado ônibus. Senti um alívio perturbador. Todas nos preparamos para pegá-lo. Entrei, passei pela roleta e sentei bem atrás, nas últimas cadeiras. As três entraram pela porta do meio preferencial, a maior e a menor se sentaram logo nas cadeiras da frente. A mulher também sentou após pagar sua passagem. O caminho se seguiu, o sol já havia cessado o seu brilho. As três desceram bem antes do meu ponto e, por isso, consegui me despedir silenciosamente ao contemplar um último acontecimento. A mulher mandou a menina maior passar a boneca para a menor, falando que aquele momento presente era a vez da outra brincar com a única boneca presenteada pelo acaso. Fiquei inútil.  
 




domingo, 21 de fevereiro de 2016

Insônia de sábado

Uma poesia antiga na insônia de sábado
Me fez refletir sobre acontecimentos rotineiros
Tão normais que as faces ficam impassíveis
 Preocupadas apenas com julgamentos alheios

O poeta foi expulso da cidade
Hoje ninguém vê que a criança tem fome
Seu olhar disse: o mundo age sem piedade
E eu nem sequer sabia o seu nome

Hoje as pessoas só olham a palma da mão
Não se compadecem pela conversa amargurada
Estariam interessadas no assunto de antemão
Com a pessoa em outro lugar conectada

O catador  rejeitado desabafa seu perecer
Disse que a vida de boa, trouxe decepção
Fala que trabalha pra não enlouquecer
Amargurado e sem rumo, condenando a solidão







terça-feira, 4 de agosto de 2015

O meu prazer

Deita ao meu lado e deixa eu bagunçar esse cabelo
Apesar do tempo, o meu prazer é provocar um riso 
Nesse rosto infantil, isso não é nenhum segredo
Não és escolha, és a resistência que sinto

Me encanto com você a cada dia
Escolhi viver os desafios dessa vida ao seu lado
Minha vida sem você, como seria? 
Uma nota errada em violão amargurado

Não mais me envergonho da maquiagem borrada
Nem da roupa desalinhada
Você invadiu minha retina, viajou em minha alma
Deixou uma surreal melodia e de todo o resto fez morada.



segunda-feira, 13 de julho de 2015

Cotidiano vazio

Eu olho pra imensidão do céu 
a procura de uma fuga para o infinito

Uma fuga que me faça viver em êxtase
com sublimes feições  extraterrestres a me contemplar

Inteligível como frase sem crase
Mas tudo se curva diante do caótico mundo 
que insiste em me abominar

Tento libertar os pensamentos de forma nítida no claustro acolhedor
Pois meu mundo anseia euforia

Mas não! Martírio, dor... hoje até Nietzsche me consolou
Por fim, apago até a próxima dinastia

No outro dia a mandala da embriaguez me distrai
Eu olho pra imensidão do meu ser e um grande vazio me esvai.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tropicália: A reviravolta Cultural

Não devemos simplesmente deixar de lado tudo que aconteceu no nosso Brasil. Não podemos deixar esquecidos capítulos mostrando a realidade do passado do nosso país, deixando livros de história enfeitando as prateleiras de uma biblioteca. É dever de todo brasileiro, honrar e homenagear hoje, o que pessoas iguais a nós no passado, fizeram para transformar o que antes era cultura vinda de outros, em cultura própria do nosso lugar. Não deixemos às traças, as lembranças de uma humanidade que deixou de ler para viver uma história. Tratemos com respeito aqueles que antes protestaram por respeito. Diante de tal conscientização, tratarei de expandir os alicerces de um movimento muito importante, que marcou a transformação da cultura musical brasileira. Estou me referindo ao Tropicalismo. Esse movimento cultural revolucionário teve como influência o movimento antropofagia de Oswald de Andrade e do concretismo. O que chamou e chocou de certa forma, a atenção dos quem assistia toda a cena, foi a sua capacidade de misturar vários gêneros musicais, como o rock, a bossa nova, o baião, o samba, o bolero, entre outros. Com a intenção de modernizar a nossa cultura com novos padrões estéticos, incentivando um modelo que representasse o Brasil, de modo que o descrevesse de forma original. No auge de uma ditadura militar, com o Brasil sendo governado por Costa e Silva, os principais líderes desse movimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil, lançaram o disco Tropicália ou Panis et Circensis, na companhia de outras grandes cantores. São eles: Gal Costa, Tom Zé, Nara Leão, Maria Bethânia, Torquato Neto, Os Mutantes, entre outros. Sendo apelidado de disco ''Feijoada Cultural''. Neste tempo, a vanguarda erudita era considerada como o símbolo da tradicional e única música brasileira. A guitarra elétrica era vista como um símbolo da alienação e submissão à cultura norte americana. Por isso, quando o movimento veio com a intenção de misturar vários elementos em um único estilo musical, várias pessoas criticaram bruscamente a nova tendência, não sabendo eles que a intenção era universalizar a linguagem da MPB, incorporando elementos do rock com o ritmo arrepiante da guitarra elétrica, a sincronizar com a vanguarda erudita. Quando nos vem à cabeça o período da ditadura militar, imaginamos a total censura, as torturas, as prisões, a polícia repressora. Mas, não deixemos também de lembrar que esse período foi riquíssimo em criatividade e ousadia de um povo que queria ver brilhar em vários pontos da terra, a essência da Terra Adorada. 

Ganância, voracidade e guerra

Desde as independências de todos os países atuais até as principais guerras ocorridas no mundo, o motivo econômico é o que leva os que estão no poder embriagar milhões de homens, e empurra para os campos de batalha com ideais de "patriotismo".
Cegos com tanta devoção há sua terra, matam pessoas que nunca viram antes, e as poucas que voltam vivas se envaidecem com um semblante heroico. Morto e enterrado está o semblante heroico daqueles que não poderão voltar para suas casas, fazendo tantas crianças ficarem órfãs.
Analisando a balança comercial bio econômica, o auge resplandece para um país e a humilhação é o que resta para outro além de ter a metade da população dizimada; o corpo não é mais desfigurado por bombas e granadas, mas a honra é o alvo da mutilação que faz alimentar o ódio de uma nação que insiste ficar de pé.
Vamos sair e se divertir, ver o pôr-do-sol, enquanto aproveitamos e admiramos o que nos resta de belo por aqui, ao mesmo tempo no outro lado do mundo é calculado a destruição e o fim de pessoas inocentes. Contam-se os segundos para que a matéria se desintegre da face da terra.

Soneto do capitalismo

                                       Na brisa leve de um lugar vazio
                                       Sonho! de tão má forma e crio
                                       Ideias e sobrevivência a sangue-frio
                                       De um reinado onde o fracasso sorriu.
                                        
                                      Todos a mercê do paraíso industrial
                                      Nascimento e morte que gera dinheiro
                                      A classe dominante, mal companheiro
                                      Facilita para todo o resto ser marginal.
                            

                                      O que Karl Marx tentou dissipar
                                      É o que muitos tem a falar
                                      Esperança morta, capitalismo lucrando!
                                       
                              
                                       O que ontem gerou guerra comercial
                                       Hoje é acomodado e normal
                                       Felizes ajudamos comprando, comprando!

Ter você

Ter você é chegar ao final do dia com um ar diferente
É voar e poder tocar o céu
É poder aturar qualquer tipo de desprezo, pois tem alguém que vai te fortalecer
É ter uma rosa em suas mãos e viver um conto de fadas
É viver uma poesia
É ter uma poesia
É não querer saber de nenhum tipo de comprometimento artificial
É ter uma voz sussurrando em seu ouvido com uma clareza tão plena e pura
É adormecer com o seu perfume estampado em sua blusa furtada
É acordar e desejar te ver só para dizer que o ama
É escultar uma música e relembrar todos os momentos vividos ao teu lado
É sorrir em saber que não virá apenas momentos com você e sim uma vida inteira
Ter você e nada a mais!


O que ficou para traz

Nesta vida tão efêmera 
me venho com ideias iludes
Como na qual querer colher uma flor
Uma simples flor que insiste nascer no asfalto 

lutando por um desabrochar
Paranoias minhas contidas no cotidiano
Não é tão raro como um eclipse solar
Na noite que vem e devora
Na noite que vem sedutora como uma ninfa
Cabe-me ter lembranças fulminantes
Que vai brindar com as luas de Júpiter
E que vem e se apaga  no céu noturno
Onde resplandece o teu sorriso.

Sunday Morning


Lembras da noite passada ?
Você me tirou para dançar. 
É como se você soubesse o que estava se passando com a minha alma. 
Você descreve, realiza e fascina com todos os seus gestos de um príncipe da era medieval. 
Levou-me a um lugar fantasioso. 
Um êxtase sobrenatural nos fez sentir os pés sobre o chão
 A elevar-se.

Quem sabe amar

Pra quem sabe amar uma vida e tão exuberante quanto a qual ser monótona

Se joga de corpo inteiro naquilo que age no eu, na sexualidade

Afetivo da vida, sempre com aquele sorriso no rosto

Pra quem sabe amar uma poesia á reviver velhos sonhos

Quem sabe amar põe enfeite no feio, quebram todos os espelhos 

Oferta uma aliança ao preconceito

Quem sabe amar, perde tempo na janela escrevendo no vidro embaçado 

Um nome para eternizar

Quem sabe amar, se distrai admirando a diminuta fração do horizonte

Fazendo tudo dentro de si ficar envaidecido e belo

E ama! Ama com toda força do ego e despreza todas as limitações.


Fim de Tarde

Meus sentidos agudos ouriçam sob o fim de tarde que entra através da janela. A noite se dobra sobre covis da cidade. Aqui estou eu, fazendo parte deste cenário que é meu cotidiano, lembrando de cada momento seu ao meu lado.
Lembro-me claramente de todas as folhas de papel que usei para escrever sobre o que mais me da forças para viver, que é esse amor que sinto. Lembro-me de todas as vezes que senti seu coração palpitando seguindo as batidas do meu. E que se um dia uma tragédia acontece-se, a favor de nos separar, saiba que desaprenderia a viver, como se a vida estive-se dilacerando uma parte de mim. Por mil maravilhas, ei de ser atenta a todos os seus gestos e encantos a merce do vento e de todas as coisas nesta vida que me atribui a  ter você.

                       Te amo com amor sem fim. 




Doce ilusão do perfeito

Há dias que me sinto no deserto, no meio do nada, sem água.
Eu, a areia e o sol que resseca toda porcentagem existente de água em meu corpo, e com o tempo demostra ser não um fenômeno natural que enfeitiça meus olhos, mas sim um inimigo traiçoeiro. Dizem que a mulher foi feita para amar e ser amada, um ser doce, divino. Eu quando fui crescendo, percebi que tinha esse dom de amar como qualquer outra, mas era diferente, exagerado! É...
O tempo passa e nós vamos percebendo que esse mundo é como quem fere a carne para deixar cravada uma tatuagem.
Tem dias que me sinto triste por nenhum motivo, sentindo falta daquele meu eu romântico, me deixando absolutamente sem inspiração, solitária, no cenário áspero e agreste desta vida.
Querem me enlouquecer, me esquartejar com suas inquietações mais agudas.
Mas que boba sou eu, é apenas fundamentos da existência humana, que tentam furar o meu bloqueio para o modismo vulgar.
Sou apenas uma desprotegida em horas de decadência, vivendo em um inferno sem fogo, sem docilidade, obrigada a presenciar toda a raça humana a se debruçar sobre o abismo da sobrevivência natural carregando pequenos infernos sob suas carcaças de sujeitos que se dizem ser civilizados e pensantes.
Oh meu Deus! Se me queres na inutilidade de vossa crença, devolva-me a doce ilusão do perfeito, estou em um mundo opressivo, como uma cortina que barra toda a possibilidade de luz. Quero de volta a minha poesia, a venda que não me deixa ver os meios que me furtam o sentimentalismo e a piedade.
Quero apenas ouvir violinos que sublinham uma peça musical.

Beijo alucinógeno

Toma posse do meu corpo inteiro! 
Me deixa saber que tipo de hipnotismo 
me envolve quando sua mão desliza 
sobre a curva da minha cintura.

Feitiço que passa feito peste! 
efeito alucinógeno, transporte para outro mundo. 

As nuances que produz efeito e textura,
faz surgir narrativas, 
que mistura meus sentidos aguçados 
em torno dos seus. 

Ousadia ao desconhecido. 
o olhar sorrateiro introduzido na alma, 
intrigante e ao mesmo, se torna instigante.

Pseudo Felicidade

O homem em si vive em conflito com o meio onde adquire conhecimento e experiência, o homem fora de si vive em conflito consigo mesmo; afinal somos feitos por um elemento qual não aprendemos na química, e ela em si é composta por emoção. Esse tal elemento é que nos faz diferenciar dos outros animais, que já nasce para quando adultos, reproduzirem, deixar seus descendentes e perpetuar a sua espécie. Às vezes nem damos conta de outras coisas; o homem necessita tanto deste vínculo de fortalecimento que se precipita e acaba com migalhas em suas mãos, ou encontra uma pseudo-felicidade no leito de um rio que não é capaz de matar a sede de uma população, um rio onde as águas não renasce, um rio que em suas margens não brota uma única flor. Acredita-se que o valorização de certos fenômenos naturais que é presente na vida, é o primeiro passo para deixar que aconteça de forma consistente, aquilo que é tão inesperado. E o que é exatamente esses certos fenômenos naturais que são presentes na vida?
Certamente é tudo aquilo que em um dia corrido e estressante não é percebido.
Não há conceito de tamanha verdade.
Nos acontecimentos mais simples por espontânea vontade, é onde esta a armadura que protege do pseudo-felicidade, e o que flui hoje é o reconhecimento do poder de enxergar aquilo que faz o ser humano criar forças, poder enxergar as coisas mais belas nas mais simples e sinceras.

A lua

A luz da lua reflete em meus olhos a plenitude de uma harmonia bela de um lugar inatingível. E por saber que nós humanos invejamos o seu brilho hipnotizante, ainda insiste em ficar extraordinariamente incomparável a qualquer fenômeno visto antes por todos. Uma noite perante a sua ausência é inimaginável, e sei que mesmo de longe, eis capaz de ser uma companheira insubstituível. Sobre o meu romance está você, como cúmplice, admirando a capacidade que os homens têm de amar. Amor esse que é banhado por seu brilho que brinda a existência de um sentimento, apesar de humano é inestimável a vossos olhos, e que de tão puro anseia ser mais puro como a qual desejar a existência de uma fábula.

Racionalidade contra instinto

Em uma vida envolvida por turbilhões de transtornos, que é o comum em todas, ainda têm-se a capacidade de querer trazer para si outra visão mundana. E isso é relativo para cada um. Por mais que existam corações com portas trancadas, sempre haverá uma maneira de alcançá-lo atravessando alguma janela. A vida sem a fantasia deixaria de ser apreciada como uma obra literária; é onde está a beleza inestimável da mitologia, quaisquer que seja sabe-se que é um mito, inato, mas sempre vamos capturar em algum ponto uma identificação íntima, uma compreensão prazerosa que nos traga um conforto evidente para a realidade. Ao desprezarmos, passando a viver de forma extremo-racional, o prazer em viver se transforma em uma mera freqüência de casos e acasos, se portando em um mundo onde tudo se resume a obrigações. Admirar o que a vida tem há oferecer é sentir na pele a manhã com suas metáforas, e a noite com seus mistérios. Pois, o instinto necessita da fantasia, assim como a racionalidade a sua compreensão.