domingo, 4 de fevereiro de 2024

O jogo dos espelhos


Era um corredor longo e escuro até chegar à porta do banheiro. Ela conduzia- se para dar fim ao seu dia motivado por afazeres corriqueiros e irremediáveis. Essa dinâmica repetia-se exaustivamente, dia após dia. O chão estava frio. Com a ponta do pé, pressiona o tapete que estava longe e posiciona embaixo de si para amenizar a sensação desagradável. Lava o rosto, escova os dentes e olha fixamente para os olhos refletidos no espelho, identifica a aura dos que exalam irresponsabilidade e ignora. Lembra que tinha esquecido de colocar as sobras da refeição na geladeira. Será que estraga? Era isso que importava. O cume da existência moderna e a satisfação imposta para os que não conseguem agir por incompetência. Ela estava lá, admirando seus produtos escolhidos por indicações repercussivas. Cores, cheiros, texturas. Cada embalagem com sua responsabilidade. Seu corpo está suspenso no tempo, adormecido antes mesmo de chegar na cama. Era hábito esse costume. Sua vida. Antes que o próximo passo se realize, sente um aperto na garganta, um nó. O aperto se intensifica, será que está adoecendo? Resolve ir para a cama. Ao devolver um tubo de creme ao seu devido lugar e se posicionar novamente na frente do espelho, percebe que não está sozinha.

O susto e o pavor a consumiu integralmente, quis gritar mas a voz a abandonara. A visita tinha um rosto familiar, os dentes cerrados, lábios contraídos, sobrancelhas arqueadas, olhos fundos e abertos que beiravam anormalidade. Ela vira bruscamente frente a frente com aquela criatura. Os poucos segundos que restaram serviram para identificar o seu próprio rosto transfigurado por feições doentias, disfarçadas inutilmente por uma sombra grotesca. Não entende. Está a um palmo de distância do seu rosto, sente a respiração da sua cópia no rosto como a de um animal. Com as mãos, tenta suspender o corpo sobre a pia que está atrás de si. A tentativa de se distanciar é falha pois aquilo insiste em se aproximar. O pânico a consome. Escapam lágrimas de seus olhos, seu rosto estremece, seus braços estão rígidos ao ponto de se fragmentar. Expele da garganta uma tentativa de socorro. Supersônico. Seu grito resulta no impacto em meio ao crânio que foi direcionado ao chão, juntamente com o resto do seu corpo.

Não sabe por quanto tempo ficou inconsciente. Foi só abrir os olhos para encarar tontura e uma dor latejante no rosto. Percebe que seu corpo estava sendo arrastado por movimentos impulsivos. Levanta um pouco a cabeça e reconhece seu algoz. Não sabe o que fazer, se desespera e debate o corpo que anseia liberdade. Se arrasta na direção contrária, urra, mas é alcançada por outro impacto aterrissado no seu rosto.


Era uma rua sem fim e escura. Ao lado de um carro, uma montanha. Ao lado da montanha um abismo. A vítima está com o corpo esquecido dentro. A cópia exaltada em volta do veículo dança, gargalha, como se comemorasse vitória. Seu rosto se abria para o além. Tira cigarro e isqueiro do bolso e acende. Ergue e admira seu cúmplice. A luz da lua refletia no aço. Aquele era o momento que esperava muito tempo. Ficava sempre à espreita daquele corpo vulnerável dia e noite sem cessar, drenando sua energia, sorrateiramente. Agora chegou a hora de seguir em frente sozinha, já estava forte o suficiente.

Dentro do carro a vítima abre os olhos devagar, tenta situar-se na atual realidade e percebe onde está. adiante aquele ser responsável pela situação. Um cheiro forte de gasolina. Abaixa a cabeça bruscamente e torce para não ser vista. O que aquele ser estava planejando? Ela abre lentamente a porta do carro e subitamente percebe um rastro colossal de fogo vindo na sua direção. A chama se aproxima engolindo o asfalto, sentia o coração batendo na garganta. Suor frio. Tontura. Não pensa, se lança para fora do veículo como se mergulhasse, rolando pelo chão várias e várias vezes. Levanta-se e corre na direção da montanha, cambaleando. A tempo consegue fugir da explosão que a faz desorientar-se em meio ao calor e ao barulho que a faz ensurdecer. Zumbido agudo.

A cópia percebe a fuga e transparece insatisfação com uma estereotipia animalesca. Corre feito fera que avista presa. A vítima se desespera, escala ribanceira acima. A cópia se aproxima com agilidade ao ponto de alcançá-la em questão de segundos. A vítima chega no ápice, vê que não tem saída. Se quiser sobreviver terá que se jogar ou enfrentá-la. Olha para o lado e percebe uma cabeça surgindo do breu com olhos excessivamente abertos refletindo chamas e obsessão. Está lá, frente a frente. Por um momento sente que pode agir. A cópia se aproxima bruscamente e empurra a vítima em direção ao chão e se prepara rapidamente para realizar um golpe certeiro. Superando todas as expectativas, a vítima lança um chute e acerta com maestria o rosto daquela criatura. Desaparece por enquanto. O impacto a fez desmoronar pelas pedras abaixo. Comemora internamente a sua autodefesa  e segue caminho em busca de um lugar seguro. Vai descendo sem sentir as pedras e a areia penetrar seus ferimentos. Agora era questão de honra. A cópia anda em direção ao carro sendo consumido pelas chamas. Abre o porta-malas e retira um martelo. Não esboça nenhum tipo de reação ao entrar em contato com a carroceria fumegante. Abandona o cenário e dá continuidade ao seu objetivo.

A vítima vai correndo, ziguezagueando, adiante a rua sendo iluminada. Finalmente movimentação. Está a salvo. Vai diminuindo os passos, sua existência inteira dói. Sente novamente o nó na garganta seca. Para em frente a uma loja de eletrônicos. Vitrine imensa, vendedores ocupados no ofício. Cores, telas, propagandas, movimentos repetitivos, silêncio... um estrondo. Estilhaços por toda a parte. Involuntariamente se abaixa tapando com as mãos os ouvidos. Olha para o interior da loja e percebe um martelo no chão. Olha para trás e identifica quem originou tal façanha. Invade as profundezas do estabelecimento em busca de socorro. Ela corre entre as prateleiras de objetos à venda, grita para ser notada. As pessoas lhe atravessam com olhos de rotina, cansados e inabalados. Toca no ombro de um dos vendedores e pede ajuda, socorro, piedade, perdão. Nada! Mas será possível? É real? É ela por ela, incessante agonia. Mãos e lábios trêmulos, sangue e suor escorrem em câmera lenta pela têmpora latejante. Engole angústia e desespero. Tapa a boca com as duas mãos para não sinalizar nenhuma localização. Esconde-se.

Se inclina para o lado e tenta mirar sua cópia que está passeando por entre os corredores, assobiando e cantarolando, pescando produtos e observando embalagens como um típico consumidor indeciso. Volta para a sua posição e percebe o martelo a metros de distância. Não pensa e corre na sua direção. Ao obter sua defesa, corre com o corpo abaixado para o outro lado da loja. Não se reconhece. Está agindo com instintos primitivos, aguçados. Espera sorrateiramente seu predador. Mandíbula contraída. Sangue em larva. Coração na cadência de tambor. Sente a presença se aproximando, dá alguns passos confiantes e se depara com ela. Os segundos que se passam demoram décadas. A cópia dispara em explosão. A vítima finca as duas pernas no chão e segura o martelo firme acima da cabeça. A cópia inclina o corpo e ataca covardemente nas suas pernas, empurrando-a para frente. Levanta seu corpo e  lança, a fazendo tombar miseravelmente.

Após o ataque, a cópia se aproxima lentamente daquele corpo derrotado. A vítima sufoca o choro na garganta, sente incompetência e angústia pela falha. Olha à sua volta e sente que uma plateia a vê desmoronar pela milésima vez. Já falhou, adiou, prolongou, ignorou, demorou demais. O choro é a consequência dos seus atos de postergação.

Seu corpo no chão a fez entender que aquela posição não caberia mais para si. A cópia paralisa. Seus olhos reviram-se, seu corpo cai. Convulsiona. Sua existência se transfigura em vazio.

Em outro instante, a vítima cuidou do corpo que se definhava a cada dia em seus aposentos. Banhou, cuidou das suas chagas, nutriu com delicadezas. Eram novos tempos. A atmosfera transpirava renovação. Aquilo tudo a fez entender que nossos atos podem querer nos consumir.

 E assim, sentiu o vazio prevalecer no lugar. Estava sozinha novamente.